C   redit
Ele não era perfeito nem nada. Ele não era um príncipe encantado de conto de fadas, e tal. Tentava ser assim às vezes, mas eu gostava mais dele quando essas coisas desapareciam.
A culpa é das estrelas.   
Foi numa esquina da dez com a quatorze, num bar, quando o sol já estava quase baixando. Foi assim, após anos, que nos encontramos. Teu olho tá mais claro, teu cabelo mais escuro, tu ficou vermelho, eu não quis olhar muito. Tu ainda bebe, como naquele setembro que deixamos de nos ver, no qual você fugiu sem deixar nenhum bilhete, sem sequer avisar, se um dia, ainda voltaria. Era você, né? Sei que sim, eu seria incapaz de não reconhecer alguém que nunca conheci tão bem como você.
October, 1944.   
E se ele perguntar sobre mim, diga somente que estou melhor, nem bem, não tão mal, apenas com menos dores que ontem, quem sabe mais feliz amanhã. Que estou indo, deixando pelo caminho pedaços da minha pesada carga de problemas existenciais, mas morando ainda no mesmíssimo endereço onde sento no fim da tarde no banco de praça, ele sabe qual, e fico admirando o céu que possui uma paz que nunca terei. Estou tentando abrir um sorriso a medida que percebo que sem ele está tudo diferente, de uma forma ruim. Quando fecho os olhos, eu me mudo, habito noutro planeta onde os moradores tem somente o nome dele, que os fantasmas que me assolam tem seu mesmo perfume, mesmo gosto do beijo. Simplificando: Faça-me o favor de pedir para ele morrer antes que eu enlouqueça e vá atrás dele. Ou mande ele voltar depois da primavera para o lugar de onde não deveria ter saído sem me levar.
A saudade poderia ser opcional.
Querido amigo, há tempos venho querendo escrever esta carta, mas não acho palavras para escrevê-la. Morte para mim tem apenas um significado. Viajem. Amanhã ou depois também irei viajar: uma viajem sem volta para um lugar desconhecido. E aí nos veremos novamente. Não faço ideia de como (nem quando) será. Espero que seja lindo aí onde você está. “A melhor viajem de todas” dizem as pessoas. Deve ser por isso que você não volta, né? Eu te entendo. Acho. Eu sempre quis você de volta. Desde quando partiu. No fim do dia é sempre mais difícil. Naquela hora que eu encosto a cabeça no travesseiro e as lágrimas rolam. Sabe, amigo. É sempre assim. Essa confusão dentro de mim, esse desespero. Essa saudade. Dói quando eu ligo no seu celular, e só chama, chama… E eu lembro que você não vai atender. Não aqui. Não hoje. Mas eu entendo. Essa viajem vai de geração em geração. Eu só não consegui meu passaporte. Isso é injusto: eu queria viajar com você. Dividir as sensações dessa louca viajem e no tal lugar desconhecido, conversar sobre o que você está sentindo. Isso mesmo, eu me importo com você. Ainda. Eu gosto de saber o que passa na sua cabeça. Gosto de entender você… Gostava. Ou gosto? Se você não está aqui, eu ainda posso gostar? Isso é difícil. Confuso. Isso! Essa é a palavra que me define (um pouco, pelo menos). Eu ainda não entendo porque não me convidou. Eu queria tanto ir com você. De verdade. No começo eu senti raiva, sério. Eu odiei você. Mas era bobagem. Odiar alguém que não está comigo. Eu sei, eu sei. Você iria rir disso. E eu ficaria com mais ódio. Sabe o que mais? Eu levei flores pra você. Esses dias aí. Foi muito especial. Eram margaridas. Você dizia que caso encontrasse alguém, sempre daria margaridas à essa pessoa. Margaridas são simples. E você também era. Tudo o que encontrava na sua frente, estava bom: primeira roupa no armário, primeira cueca, primeiro prato (isso é estranho porque qualquer tipo de pessoa, ou quase todo, escolhe o prato em que come)… Eu sempre quis um amigo assim. Igual você. Era sempre amável e gentil e todo sorrisos. Eu gostava. Mas você tirou seu passaporte e a viajem foi só de ida.
Thales e Kaique.  
Aconteceu, foi meio na correria, nos esbarramos na contramão. Ele indo e eu vindo. Mas o amor acerta os caminhos.
— Estamos na mesma mão.
Acho que estou gostando de você. Ou comi alguma coisa estragada.
Gabito Nunes.
Esperamos por coisas que sabemos que não vão acontecer, e no fim quando somos decepcionados, ainda nos surpreendemos com o tamanho da dor resultante de nossa loucura, pois acreditamos que algo, alguém, bom pode cruzar nosso caminho com passos distraídos, sendo que permanecemos trancados em nossos próprios mundos evitando qualquer contato mais a fundo, repelindo o profundo.
— Não me decepcione, por favor. 
Decifra-me ou devoro-te.

Desculpe se te assustei, babe. É que eu consigo ser tantas e sentir tanto em tão pouco tempo, que costumo espantar as pessoas. Eu sou mesmo um temporal. Digo o que sinto, o que penso, o que carrego comigo e o que já despejei nos colos, ombros e abraços alheios. Eu não sou guiada por nenhum tipo de razão, sou guiada pelo amor e meus ouvidos só estão aptos para ouvir o que vem do coração. Dou a cara a tapa e deixo a alma exposta, não sei agir pensando no que vou perder. Meu caminho é sem medo e apesar do receio de sofrer, tiro o chapéu pra quem sempre procura se arriscar. Eu sou um turbilhão de excessos e um livro assustadoramente difícil de ler. Se quiser ficar, saiba: vou sugar suas energias quase que por completo. Mas se me ganhar, me ganhará por inteiro. Com minhas alegrias e tristezas, meus truques e destrezas. Portanto, não fique em cima do muro e me obrigue a ser metade só pra te agradar, nasci pra ser inteira e me recuso a ser plateia do meu próprio espetáculo.

Requietude.

Acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus, ou quando sua risada se confunde com a minha.
Chico Buarque.
Eu encontrei quando não quis mais procurar o meu amor, e quanto levou foi pr’eu merecer, antes um mês e eu já não sei. E até quem me vê lendo o jornal na fila do pão, sabe que eu te encontrei, e ninguém dirá que é tarde demais, que é tão diferente assim, do nosso amor a gente é que sabe, pequena. Ah, vai, me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar, e se o caso for de ir à praia, eu levo essa casa numa sacola. Eu encontrei e quis duvidar, tanto clichê, deve não ser, você me falou pr’eu não me preocupar, ter fé e ver coragem no amor. E só de te ver, eu penso em trocar a minha TV, num jeito de te levar, a qualquer lugar que você queira e ir aonde o vento for, que pra nós dois sair de casa já é se aventurar. Ah, vai, me diz o que é o sossego que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar, e se o tempo for te levar eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar.
Los Hermanos  
Eu não a culpo. Não podemos escolher quem amamos.
Game of Thrones.  
Sim, ele era encrenca, das boas. Eu sabia o que estava fazendo, ele também: estávamos fazendo uma coisa errada. Mas gostei da luz, dos olhos dele. Gostei que estava me encantando, gostei de não poder me encantar e mesmo assim estar me encantando.
Tati Bernardi.